sábado, 9 de maio de 2009

Mães de verdade


O Dia das Mães, supostamente, é para ser uma celebração, mas para nós, mães, essa é uma data para relembrar de como nós temos falhado com nossos filhos. E, consequentemente, como nossos filhos tem nos desapontado. Cada uma de nós temos nossa própria história, algumas tem filhos que se casam fora da sua religião, algumas tem filhos que se relacionam com pessoas do mesmo sexo, e existem, ainda, algumas mães, como eu, que tem filhos com transtorno de identidade de gênero.

Eu senti como se meu filho tivesse traído minha mais profunda moral familiar e princípios religiosos. Eu estava perdida em relação ao que fazer. Eu sou uma cristã conservadora. Como eu poderia reconciliar os ensinamentos da minha igreja com o amor pelo meu filho? Eu não podia. E, então, com o passar dos dias eu pude sentir um grande distanciamento entre nós. Eu pensava nas mães que abandonaram o crescimento dos seus filhos simplesmente cortando-os de suas vidas por eles serem diferentes. Por verem seus valores e princípios, que gastaram a vida toda ensinando, indo embora. Eu pensei naqueles filhos "emocionalmente orfãos" e que ficariam mais ainda no Dia das Mães. Eles deviam comprar cartões dizendo, "Mãe, até mesmo quando você fugiu dos meus chamados eu amo você”. Ou, "Mãe, continuo te desejando bem até mesmo quando você não abriu a porta quando eu bati.” Eu estava envergonhada. Eu não queria ser esse tipo de mãe, não queria receber esse tipo de cartão no Dias das Mães.

Eu estava tão envergonhada quanto você pode estar quando a sociedade diz que você falhou como mãe. Felizmente, uma coisa me envergonhou mais que os julgamentos da sociedade, e era a possibilidade de perder meu filho para sempre, para um mundo que era abertamente hostil com ele. Eu reconsiderei a idéia de deixar meu precioso filho cara-a-cara com tantas pessoas que poderiam fazer sua vida miserável. Eu não faria, eu não podia, considerar a idéia de abandonar o meu filho que eu criei todos esses anos, quando ele mais precisou de mim e me pediu socorro. E eu também não poderia abstrair da idéia de que ele carregaria pelo resto da sua vida a convicção de que ele me desapontou. Eu não queria receber um cartão de Dia das Mães dizendo, "Obrigado, mãe, por me amar até mesmo quando eu matei todos os seus sonhos e planos pra mim". Eu queria mais, alguma coisa maior, queria um cartão dizendo, "Obrigado, mãe, por me amar e me aceitar quando ninguém mais o fez".

Para a maioria das mães, o Dia das Mães é simplesmente uma data para elas serem bajuladas e afirmarem o quão corretas e perfeitas são. Mas para muitas mães com filhos com problemas de gênero, isso não é assim. Esse é um dia para elas lembrarem dos filhos que abandonaram e não aceitaram, para aquelas de nós que tem tido uma jornada de separação e alienação, de esquecimento e aceitação, o Dia das Mães tem uma dimensão que ainda tem que ser captada nos cartões de datas especiais.

Eu fui sortuda, encontrei um modo de salvar o meu relacionamento com meu filho e ainda manter os meus valores intactos. Desci de dentro de um lugar escuro que me amedrontava, olhei para Deus em todo o meu vazio no coração e acendi minha fé dentro de mim. E no final, isso era a reafirmação dos meus principíos religiosos que pediam uma profunda reconciliação com meu filho, pensar nele e não em mim. Quando um filho se relaciona com alguém do mesmo sexo, ou casa com alguém de outra religião, ou simplesmente repudia valores, isso pode dificultar a relação entre mãe e filho. E é exatamente nesse ponto que toda mãe tem que tomar uma decisão sobre como seguir em frente.

Talvez algum dia alguém criará um cartão refletindo a história de reconciliação do amor entre mãe e filho (ou filha). Mas até lá, toda mãe que redescobrir o amor incondicional, receberá um cartão escrito pelo seu filho, com seus próprios sentimentos, ou simplesmente ouvirá "Mãe, obrigada por me aceitar e me amar, como eu sou".


Esse texto anônimo sempre me emocionou, o tenho guardado desde a época do finado fórum de discussão "disforias de gênero" da Samara Sommers.

Graças a Deus, eu tenho uma mãe e um pai excepcionais.
Mãe, amo você! Parabéns pelo seu dia

Foto: Constance (Natasha Richardson) e Ann (Vanessa Redgrave) em cena do lindo filme "Evening". Mãe e filha na ficção e na vida real; Natasha faleceu no começo do ano após um grave acidente de esqui.

7 comentários:

Carolina Diniz disse...

Oi Sarah,

Que lindo o seu texto!
Emocionou a mim também.
Beijos e muito obrigada pela visita.
Carolina Diniz do Sexo na ponta da língua publicou um post sobre... E quando o relacionamento acaba...

Carol disse...

Oiee, Sarah!!!
:D
Obrigada pela visita e pelo comentário...
:D
E a vida continua né!!!
Beijo!!
Carol!!

Laura disse...

Sarah! Fico feliz que tu tenha uma mãe assim. Pra vc ver como são as coisas...eu nunca fiz nada dito "imoral" mas minha mãe me abandonou já a muito tempo. Ela sentia que era um grande problema ter que ajudar nas minhas fossas quando algum namorico não dava certo ou algum cara me machucava. Hoje ela está sem falar comigo, a espera de um pedido de desculpas por sempre pedir pra ela ajuda e pedir conselhos quando eu errava. Bom, ninguém havia me dito que isso não era um trabalho de mãe. Enfim, tu me deu uma excelente idéia de post, assim que eu tiver condições emocionais de expor isso mais publicamente do que aqui no teu blog. Então só levante as mãos pro céu, pais assim são um presente divino. Beijos!

Sarah disse...

Carol e Carol,
obrigada voces, e apareçam sempre!
.............................
Laura!
Que historia! Valorizo mto meus pais e o amor q eles tem por mim, de mesmo nas horas mais complicadas, estarem ao meu lado incondicionalmente. Força e pensamento positivo numa solução positiva

Patricia disse...

eu nao sabia do falecimento dessa atriz! e sim somos abençoados por sei lá que força ou luz por termos pais que amem a gente incondicionalmente!

beijo*

vanessa lopes disse...

jah ouvi falar desse filme, mas nunca vi... vou ver.
um beju

Juliana Vilas disse...

Nossa, muito emocionante...

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